Habitar a Possibilidade
Um conselheiro do Vaticano explica como o Papa se tornou o crítico mais formidável da era dos algoritmos
Monge à Beira-Mar, 1808-10. Obra de Caspar David Friedrich.
Em maio de 2026, o Papa Leão XIV publicou sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas. O texto tem sido descrito, de modo geral, como uma diretriz do Vaticano sobre Inteligência Artificial, mas aborda questões mais profundas a respeito das ameaças à dignidade humana na era dos algoritmos. Para explorar suas verdadeiras implicações filosóficas e geopolíticas, conversamos com o Padre Antonio Spadaro, teólogo e conselheiro papal de destaque, conhecido por seus escritos públicos — ele é coautor de um livro sobre cinema com Martin Scorsese. Discutimos a formação intelectual do Papa, seu desafio filosófico ao transumanismo do Vale do Silício e seu confronto direto com o presidente Donald Trump.
Gavin Jacobson A primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, tem sido amplamente discutida — embora nem sempre com precisão. O que as pessoas estão deixando passar sobre esse texto? Como estão interpretando mal sua mensagem central?
Antonio Spadaro A Magnifica Humanitas é apresentada como uma encíclica sobre inteligência artificial, mas é, na verdade, um documento sobre o que significa ser humano. Ela foi elaborada durante — e em resposta a — uma revolução em curso que está reescrevendo as coordenadas da experiência humana: como trabalhamos, como nos comunicamos uns com os outros e como nos informamos sobre o mundo; como cremos e até mesmo como rezamos. Leão XIV assinou o documento em 15 de maio de 2026, exatamente 135 anos após a encíclica de Leão XIII sobre capital e trabalho, a Rerum novarum. Assim como o primeiro Leão defendeu a dignidade do trabalhador na era da máquina a vapor, o novo Leão pretende defender a dignidade da pessoa na era do algoritmo.
No cerne do texto, encontram-se duas metáforas bíblicas. Uma delas é a Torre de Babel: a humanidade uniformizada sob uma única língua. O setor tecnológico sofre do que o Papa chama de «síndrome de Babel»: ele traduz tudo — até mesmo o mistério do ser humano — em dados e lucro. A segunda metáfora é o Muro de Neemias: quando os exilados retornaram à cidade em ruínas de Jerusalém, em vez de impor um plano de cima para baixo, Neemias atribuiu a cada família um trecho do muro para reconstruir. A questão não é «tecnologia, sim ou não»; trata-se de como o poder gerado pela tecnologia deve ser distribuído.
O que muitas vezes escapa à compreensão sobre a encíclica é a sua dimensão antropológica, que pode ser resumida assim: o perigo não é que as máquinas se tornem humanas, mas que os humanos se reduzam a máquinas. As interpretações equivocadas costumam ser de três tipos. A primeira é ler o texto como um manual de ética tecnológica, perdendo de vista suas implicações políticas — a crítica à concentração de poder nas mãos de uma elite plutocrática e o apelo para «desarmar» a IA. A segunda, inversamente, é lê-lo como um panfleto político, ignorando as questões éticas subjacentes aos riscos que a IA representa para a humanidade. A terceira interpretação equivocada é a mais grosseira: confundir a encíclica com um documento tecnofóbico. Não é nada disso. O texto afirma categoricamente que a tecnologia não é «uma força antagônica» à humanidade, nem «inerentemente má». A Magnifica Humanitas não diz «não» à máquina, mas «sim» ao humano — um «sim» tão pleno que não precisa demonizar nada.
GJ Como um documento desse tipo é produzido?
AS A gênese da Magnifica Humanitas é, em grande parte, clara. Seus fundamentos intelectuais residem na Antiqua et nova, a nota doutrinária publicada conjuntamente pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e pelo Dicastério para a Cultura e a Educação em janeiro de 2025, por desejo do Papa Francisco. Aqueles cento e dezessete parágrafos estabeleceram as bases éticas. Eles traçam uma linha entre a inteligência humana e a artificial.
Uma encíclica não tem sua autoria assinada como num ensaio; é um ato do magistério pontifício — fruto de um longo trabalho colegial. O processo, de modo geral, entrelaça várias vertentes: a reflexão e as intervenções públicas do próprio Papa (Leão XIV falou repetidamente sobre a IA); o trabalho dos dicastérios competentes; consultas a teólogos, juristas, cientistas e, neste caso, engenheiros de IA. Um longo processo de redação e revisão eleva o texto do registro instrutivo para o pleno registro magisterial. É um trabalho de síntese mais do que de invenção: a tarefa consiste em manter unidas a tradição e a novidade — o misticismo dos carmelitas e o das minas de cobalto —, em permitir que Agostinho e Hannah Arendt falem num mesmo fôlego.
Dois detalhes revelam muito sobre o método. Primeiro: a Magnifica Humanitas foi redigida e publicada sem um original em latim, uma novidade possibilitada por uma recente alteração nas normas do Vaticano; o texto destina-se a «todos os homens e mulheres de boa vontade», e não apenas a especialistas. Segundo: no dia seguinte à assinatura da encíclica, o Papa instituiu uma Comissão Interdicasterial sobre IA, envolvendo sete órgãos do Vaticano sob uma coordenação anual e rotativa. A própria estrutura — uma rede, não uma pirâmide — reflete a tecnologia a que ela está encarregada em confrontar.
GJ Essa encíclica específica tem precedentes?
AS A Igreja não é estranha à questão da tecnologia. Em 1963, Paulo VI promulgou um decreto que descrevia as tecnologias de comunicação como mirifica: coisas maravilhosas que tocam o espírito. No ano seguinte, ao dirigir-se ao Centro de Automação do Aloisianum (instituição jesuíta em Gallarate), proferiu palavras extraordinárias: «o cérebro mecânico vem em auxílio do cérebro espiritual», e esse esforço para incutir nos instrumentos mecânicos o reflexo de funções espirituais foi «elevado a um serviço que toca o sagrado». Hoje, receamos exatamente o oposto: é a lógica dos instrumentos mecânicos que está sendo incutida no cérebro espiritual.
Já no nosso século, João Paulo II falou da mídia e da internet como o «primeiro Areópago da era moderna»; e Bento XVI referiu-se à tecnologia como uma expressão da liberdade humana que deve ser regida pela verdade, além de falar sobre o «continente digital».
Onde a Magnifica Humanitas se diferencia é no seu alcance. Em vez de abordar a IA como um tema novo, ela integra essa tecnologia à própria estrutura da Doutrina Social da Igreja, permitindo repensar todos os seus princípios. Falar de algoritmos, doravante, é falar da Doutrina Social da Igreja.
GJ O que o Papa quer dizer quando escreve sobre «desarmar» a IA?
AS Essa é uma das invenções mais felizes do texto, pois desloca a discussão da ética para a geopolítica. «Desarmar» a IA, argumenta a encíclica, significa libertá-la «da mentalidade de competição ‘armada’, que hoje não se limita ao contexto militar, mas constitui também um fenômeno econômico e cognitivo».
No âmbito militar, a rejeição é categórica. Sistemas de armas com autonomia operacional tornam a guerra mais «viável» e menos sujeita ao controle humano. Um princípio cristão inviolável sustenta que decisões letais devem permanecer nas mãos de uma pessoa — que possa, então, ser responsabilizada por elas. Nenhum algoritmo pode tornar a guerra moralmente aceitável. A IA só pode tornar a guerra mais rápida, mais opaca e mais impessoal. A tecnologia reduzirá o limiar para o recurso à violência.
No plano econômico, o desarmamento implica romper a equação entre poder técnico e direito de governar: não se deve buscar algoritmos mais eficientes e bancos de dados maiores para explorar consumidores, para extrair seus dados de saúde, perfis epidemiológicos e mapas genéticos. Daí também a proposta de ir além do PIB e adotar, em vez disso, métricas focadas na dignidade do trabalho e na redução da desigualdade. O plano cognitivo, da mesma forma, é um campo de batalha pela atenção e pela imaginação.
Permita-me acrescentar uma observação crítica. A encíclica, por vezes, trata o setor tecnológico de maneira um tanto monolítica. Há pessoas no Vale do Silício que trabalham na segurança da IA por motivos semelhantes aos do próprio Papa, ainda que sejam amplamente superadas em número por aqueles que buscam o lucro sem restrições.
GJ A encíclica refere-se ao «colonialismo digital» — um conceito marcante. O senhor acha que governos seculares e instituições globais estão prontos para ouvir esse tipo de linguagem?
AS Talvez seja a passagem mais corajosa da encíclica, pois rompe o véu de imaterialidade que cerca a IA. Nada nesse mundo é mágico ou incorpóreo: cada resposta instantânea baseia-se em uma cadeia de mediações. Sob o verniz tecnológico residem «as novas formas de escravidão»: milhões de rotuladores de dados e moderadores de conteúdo no Sul Global, frequentemente mulheres jovens que recebem uma miséria; adolescentes e crianças em minas de terras raras. Vale notar que o Papa reconhece que a Igreja demorou historicamente a condenar a escravidão e pede perdão — não como um arrependimento retrospectivo, mas como um alerta.
Estarão eles prontos para ouvir isso? Não sei. A Santa Sé não dispõe de exércitos nem de sanções. É uma auctoritas que não coage, mas propõe, e que, de tempos em tempos, faz a conversa avançar. A Laudato si’ de Francisco mudou a maneira como falamos sobre o clima. Quando Leão XIV, em sua viagem à África no último abril, falou sem rodeios sobre a concentração de poder tecnológico e militar, suas palavras tiveram uma repercussão que nenhum relatório da ONU poderia ter alcançado. Renunciar a essa questão equivaleria a admitir que a única linguagem possível é a linguagem do poder.
GJ Estaria o Papa formulando uma réplica aos transumanistas do Vale do Silício, que aspiram a superar as limitações físicas e cognitivas da condição humana?
AS De maneira muito deliberada, mas sem recorrer facilmente à condenação. A encíclica trata o transumanismo e o pós-humanismo com respeito intelectual, como «um arquipélago de ‘ilhas’ conceituais, distintas, porém conectadas por um ‘mar’ comum de pressupostos: a saber, o papel central da tecnologia e a aspiração de transcender os limites da condição humana». O desenvolvimento tecnológico expressa uma espécie de desejo de transcendência. A questão decisiva, então, não é se devemos desejar mais, mas qual transcendência.
A Torre de Babel (Bruegel), 1563. Obra de Pieter Bruegel, o Velho.
Contra esse sonho prometeico, o Papa contrapõe o mistério da Encarnação. O Deus cristão não aprimora o ser humano a partir de fora; Ele desce à fragilidade humana e a transforma de dentro para fora. Em uma passagem de rara densidade, o texto afirma que existe uma «disparidade infinita» entre a nossa natureza e a vida de Deus, a qual só pode ser superada pelo Infinito que se doa. A Igreja propõe, assim, uma plenitude que não é capturada, mas recebida, desafiando frontalmente a metafísica do Vale do Silício: o ser humano floresce não apesar do limite, mas muitas vezes por meio do limite. A magnífica humanidade do título não é o ser humano aprimorado, mas o ser humano habitado por Deus.
A Igreja não é uma «concorrente» da OpenAI ou da Anthropic, mas a sua interlocutora mais radical: ela sustenta que o verdadeiro «mais do que humano» reside não no aprimoramento técnico, mas na graça. E faz isso em diálogo com os protagonistas mais reflexivos dessas empresas. O fato de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, ter sido convidado para falar na apresentação da encíclica é um sinal dessa aposta.
GJ Este Papa é feito da mesma fibra que o seu predecessor, ou eles defendem formas diferentes de pensamento?
AS Leão XIV não repete Francisco, mas retoma o seu legado e o desenvolve em um novo contexto. O paradigma tecnocrático; a «casa comum» que se transforma em uma ecologia integral estendida ao ambiente digital; o «antropocentrismo situado» que ele retoma na conclusão: todos esses são elementos tipicamente bergoglianos.
No entanto, o pensamento de ambos tem raízes espirituais distintas. Francisco era jesuíta: a sua chave de leitura era o discernimento inaciano, o movimento dos afetos diante da realidade. Leão é o primeiro papa agostiniano, e a arquitetura da Magnifica Humanitas é agostiniana até os seus alicerces: as «duas cidades» e os «dois amores» estruturam o capítulo central, e todo o documento se despede do leitor com a preocupação geral de Santo Agostinho sobre aquilo que verdadeiramente amamos. A Torre de Babel e o Muro de Neemias são as versões narrativas do amor sui (amor de si), que constrói torres, e do amor Dei (amor de Deus), que constrói cidades habitáveis.
Sua trajetória bicontinental e missionária foi fundamental para sua formação. Robert Prevost nasceu em Chicago, mas é cidadão peruano por adoção; passou anos como missionário entre os pobres, os mineiros e os migrantes de Chulucanas e Trujillo antes de liderar a Ordem de Santo Agostinho e o Dicastério para os Bispos. É um homem que viveu, simultaneamente, no coração do império e em sua periferia. Isso lhe permite falar com credibilidade sobre o Sul Global — bem como diagnosticar a América a partir de dentro. Como alguém formado em matemática, ele não teme a base técnica do problema.
GJ A referência de J. R. R. Tolkien na encíclica parece deliberada, dada a influência do autor sobre Peter Thiel.
AS Com certeza. A encíclica confia a Gandalf a fórmula da responsabilidade na era dos algoritmos: «Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance para socorrer os tempos em que vivemos». Certas pessoas no Vale do Silício extraíram de Tolkien uma lição moral exatamente oposta.
Peter Thiel batizou sua empresa de Palantir, e seus fundos e empreendimentos de Mithril, Valar e Lembas. Ele lê O Senhor dos Anéis como uma epopeia de poder, vantagem e aceleração — cuja mensagem é a de que os fortes moldam o mundo. Mas o núcleo moral do romance reside, na verdade, na renúncia ao Um Anel: a recusa do poder absoluto, que não pode ser exercido para o bem e deve ser destruído. Os protagonistas são os Hobbits, os menores de todos. E o palantír — a pedra de visão que mostra imagens verdadeiras, mas conduz ao desespero e ao engano quem acredita comandá-la — é talvez a metáfora mais precisa para uma tecnologia de vigilância que vê tudo, mas escraviza a pessoa que a manuseia. Citar Tolkien, portanto, é disputar a propriedade de um símbolo. Leão XIV resgata um autor católico das mãos daqueles que o haviam transformado em um profeta da tecno-soberania.
Padre Antonio Spadaro diante da coleção completa de La Civiltà Cattolica.
GJ A relação entre Leão XIV e Donald Trump deteriorou-se. Isso era inevitável, dadas suas visões de mundo divergentes, ou houve uma ruptura específica?
AS Ambos os fatores. Sempre houve uma incompatibilidade estrutural — e ela foi desencadeada por uma sequência específica de acontecimentos. Em pouco mais de um ano, o atrito transformou-se no que muitos observadores classificam como uma tensão sem precedentes na história moderna entre um líder político e um Papa — fato ainda mais notável pelo fato de ambos serem norte-americanos.
A escalada teve momentos marcantes. As primeiras palavras duras de Leão surgiram em janeiro, contra a intervenção militar americana na Venezuela (o embaixador do Vaticano foi convocado ao Pentágono). No final de fevereiro, quando Trump ameaçou o Irã dizendo «uma civilização inteira morrerá esta noite», o Papa classificou a fala como «verdadeiramente inaceitável» e instou os fiéis a pedirem a seus representantes que trabalhassem pela paz. Trump reagiu com ataques públicos — «fraco no combate ao crime», «péssimo para a política externa» — chegando até a reivindicar o crédito pela eleição do Papa.
A encíclica abriu mais uma frente de discussão e revelou ainda mais uma fissura dentro da administração. O Secretário do Interior, Doug Burgum, minimizou o assunto — «Eu não sabia que fazer editoriais sobre tecnologia fazia parte do papel de ser papa» —, enquanto J.D. Vance, o vice-presidente católico, elogiou algumas de suas passagens, classificando-as como «profundas».
Costumo dizer que existem duas maneiras de enxergar a ordem global: como um tabuleiro de xadrez ou como a trama de um tecido. A primeira é composta por peças opostas e posições a serem conquistadas; é um jogo de soma zero, no qual vence o mais forte. A segunda é feita de fios entrelaçados: cortar um deles significa enfraquecer toda a trama. O «eu em primeiro lugar» é a lógica do tabuleiro de xadrez; a paz, a migração, o multilateralismo e o desarmamento são lógicas da trama.
GJ A encíclica critica o que você chamou de «novo americanismo» — a sacralização do poder e a deificação da eficiência. Trata-se de uma censura teológica ao trumpismo?
AS A encíclica não cita nominalmente os poderosos, mas a referência é transparente. Ao denunciar a «cultura do poder» que se alimenta da «polarização e da violência»; o «falso realismo» que apresenta a guerra como inevitável; a «normalização da guerra» e o rearmamento como resposta automática a qualquer crise; a construção de uma identidade coletiva contra um inimigo — a referência é transparente.
Talvez a passagem mais cirúrgica esteja no parágrafo 133, que denuncia aqueles que detêm «poderosos recursos tecnológicos e econômicos» e os utilizam para «influenciar» as pessoas sobre a verdade a respeito do ser humano, do mundo, do sentido da existência, da família e até mesmo de Deus. O texto chama isso de «puro poder desvinculado da verdade».
Aqui se revela mais uma conexão com Leão XIII. Em 1899, o primeiro Leão escreveu uma carta apostólica, Testem benevolentiae, na qual interveio contra o «americanismo» — a tendência de alguns católicos americanos de adaptar a doutrina aos valores da cultura dominante, como o pragmatismo, o individualismo e a primazia da ação sobre a contemplação. Leão XIV enfrenta um americanismo novo e muito mais poderoso, que já não adapta a fé à cultura, mas visa fundir Deus, pátria e mercado em uma religião civil. Um americanismo que sacraliza e trata o limite como um defeito a ser corrigido: o transumanismo transferido da biografia individual para o Estado-nação.
GJ O que você acha de um americano chegar ao topo da Igreja Católica justamente quando o poder dos EUA está em decadência?
AS É uma coincidência histórica carregada de significado. Pela primeira vez, um americano ocupa a Cátedra de Pedro, e o faz no momento em que uma certa ideia de América — não a América como nação, mas a América como uma metafísica de poder e eficiência — busca universalizar-se por meio da tecnologia. O fato de a crítica mais radical a essa metafísica vir de um filho de Chicago não deixa de ser um paradoxo notável.
Acredito que Leão compreende a América de uma forma que muitos prelados europeus não conseguem. Ele a conhece por dentro, fala a sua língua e sabe distinguir a América profunda — a América das paróquias, dos migrantes e da vida de trabalho — da «religião civil» que sacraliza o seu poder. É por isso que ele consegue nomear o «novo americanismo» sem cair no antiamericanismo: ele sabe que isso não representa a América como um todo; sabe que se trata de uma deformação. Um europeu que dissesse as mesmas coisas pareceria um adversário geopolítico, e não uma voz de consciência interna.
GJ Trump cultivou uma relação estreita com certas vertentes do catolicismo americano. De que maneira a eleição de Leão XIV e as suas posições subsequentes complicam essa relação?
AS Elas a complicam profundamente, pois privam essas correntes da confiança de que a Igreja — ou, pelo menos, a sua parte «autêntica» — estava do lado delas. Durante anos, uma certa aliança — aquilo que Marcelo Figueroa e eu chamamos de «ecumenismo do ódio», que une o fundamentalismo evangélico ao integralismo católico e se nutre de uma simplificação maniqueísta — conseguiu apresentar-se como a voz do «verdadeiro» catolicismo, em oposição a uma hierarquia vista como morna ou progressista. Leão XIV torna essa operação muito mais difícil. Ele é um filho do Meio-Oeste, não um teólogo liberal europeu que possa ser descartado como alguém distante. Ele é doutrinariamente sério e de formação conservadora, no sentido mais nobre. Quando um papa assim reconduz a doutrina social à sua fonte — a Rerum novarum, a dignidade do trabalho, a justiça, a paz —, ele resgata essa tradição daqueles que desejavam curvá-la ao nacionalismo.
A encíclica não pode ser redigida para o «humano em primeiro lugar» do nacionalismo. Não endossa a primazia do homem que domina, mas salvaguarda o humano na relação. Diz elegantemente a qualquer um que queira alistar a Igreja que a Igreja não será alistada.
GJ O senhor dedicou a sua carreira à reflexão sobre o papel que a Igreja desempenhou no mundo moderno. O que você acredita que o catolicismo — sob este Papa, neste momento — tem a oferecer às pessoas comuns, católicas ou não?
AS Numa época que vive de reações instantâneas e polarizadas, Leão XIV optou por não ser apocalíptico nem entusiasmado: optou por pensar. Só isso já é um recurso para quem se sente sobrecarregado — permissão para abrandar, para permanecer na questão o tempo suficiente para que a resposta amadureça.
Para aqueles que têm medo do que está acontecendo no mundo, o catolicismo deste Papa dá a convicção de que o seu valor não é computável. Para um algoritmo, o erro é algo a ser eliminado; para um ser humano, pode ser o início de uma transformação. Como escreveu Emily Dickinson: «Eu habito a Possibilidade — ». A dignidade não pode ser medida. É um mistério que é recebido.
Para aqueles que estão divididos, oferece o que chamo de contracultura do encontro: a presença encarnada contra a aparência simulada, a comunidade que verifica em conjunto contra o algoritmo que recompensa o conflito. E para aqueles que já não confiam nas instituições, oferece algo desarmante — uma Igreja que pede para ser julgada pelos próprios critérios que propõe ao mundo: transparência, justiça, audição das vítimas.
Os recursos, afinal, não são confessionais. Valem também para quem não crê, porque tocam o que ultrapassa toda medida: a arte, a oração, o silêncio, a gratuidade e o encontro humano.
Antonio Spadaro, entrevistado por Gavin Jacobson.
→ Antonio Spadaro é padre jesuíta, teólogo e editor-chefe da La Civiltà Cattolica.
→ Gavin Jacobson é o editor fundador da Equator.






Que entrevista fascinante e profunda, Editora Âyiné! A análise do Padre Antonio Spadaro sobre a encíclica Magnifica Humanitas é de uma lucidez cortante, especialmente ao situar o Papa Leão XIV não como um tecnófobo, mas como um defensor radical da antropologia humana diante da "síndrome de Babel" do Vale do Silício. É genial a percepção de que o verdadeiro perigo não é as máquinas pensarem como nós, mas nós passarmos a operar na lógica fria, utilitarista e puramente computável dos algoritmos. Trazer o contraponto ético de Tolkien - resgatando o simbolismo do Palantír e a renúncia ao poder absoluto - e a estrutura agostiniana das duas cidades mostra que a Igreja está travando o debate intelectual mais sofisticado da atualidade. Em um mundo que deifica a eficiência e tenta escantear o Sul Global no "colonialismo digital", a encíclica surge como um manifesto humanista urgente. Uma leitura obrigatória para compreender o nosso tempo!