Aqueles que partem e aqueles que ficam
Era difícil imaginar que em breve eu estaria em outro país, longe dessa guerra
Fotografia da série Goftare Nik, 2001. Por Shirana Shahbazi / Cortesia da artista.
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São 9h30 da manhã de um sábado, início da semana de trabalho. Minhas bochechas estão pressionadas contra a janela do ônibus dilapidado. Estou sonhando acordada, observando os rostos cansados disputando a rua movimentada. O céu está nublado. Gostaria de me sacudir para despertar desta letargia em que me encontro mergulhada desde a guerra com Israel em junho passado, mas não consigo.
De repente, todos os pedestres se viram para algum ponto distante à nossa esquerda, bem alto no céu, fora do meu campo de visão. Enquanto o ônibus avança aos solavancos, inclino-me para longe da janela e olho para cima; vejo uma densa fumaça subindo a leste. Os passageiros começam a gritar. «São os americanos! Eles estão aqui, estão nos bombardeando! O Ministério da Inteligência já foi atingido.»
A multidão lá fora aumenta, alimentada por pessoas que saem dos prédios. Observo grupos de estudantes aterrorizados correndo na direção oposta, de mãos dadas. Agora o ônibus diminuiu a velocidade para quase parar; punhos socam suas laterais. As portas se abrem e se fecham várias vezes. Uma mulher entra cambaleando, agarrando seu filho pequeno, e nos conta, com voz atônita, que o complexo do líder supremo foi atingido.
Estou incrédula. Meu trabalho envolve assistir a muitos filmes e ler dezenas de roteiros todos os meses. Sei reconhecer um thriller quando vejo um.
*
Nos primeiros dias da nova guerra, meus amigos e eu ficávamos sentados juntos, olhando uns para os outros, até ouvirmos o assobio inconfundível de um míssil se aproximando. Alguns segundos depois, ouvíamos um impacto enorme e corríamos para os telhados para ver onde havia caído.
Certa vez, vi um caça sobrevoar a cidade como uma ave de rapina, deixando um rastro de fumaça enquanto mudava de direção. Destruía à vontade, como num videogame – uma comparação que muita gente fazia. É um novo tipo de guerra, mas nossa imaginação ainda não consegue ir além dos videogames. A diferença é que quem morre não volta para jogar a fase de novo.
Um ataque na primeira semana foi particularmente desorientador. Quase não houve intervalo entre o som do míssil e o estrondo do impacto. Assim que abrimos a porta do terraço, cinzas da explosão, a apenas dois quarteirões de distância, se depositaram em nossas roupas. Era como se as cinzas estivessem pairando, esperando só por nós. No telhado ao lado, vimos um homem em lágrimas, batendo na cabeça e gritando: «Carne, carne por toda parte!» Pedaços de papel – dezenas de milhares deles, ao que parecia – flutuavam no ar acima de nós. O cheiro de queimado ardia em nossas narinas.
Depois que a internet foi cortada no início da guerra, ficamos quase totalmente isolados do resto do mundo. Os relatos contraditórios que nos chegavam só deixavam todos mais perturbados e mais propensos a repetir boatos e teorias da conspiração. Ainda tínhamos a internet doméstica, que não era lá essas coisas. Tantos sites estavam bloqueados que você se sentia como um animal encurralado batendo em paredes invisíveis. Por um preço salgado, no entanto, é possível adquirir dois gigabytes de crédito VPN e se conectar ao Starlink. Não estava claro quem lucrava com essas conexões, e eu geralmente me mantinha longe delas. Mas então saí de Teerã com fui com alguns amigos para o norte. Era mais seguro lá, mas a relativa calma me deixava inquieta. Eu estava por fora, sem ideia da situação na capital ou do «progresso» da guerra. Então paguei por aqueles preciosos gigabytes e entrei na internet.
Imagine meu espanto quando, percorrendo 11 dias de e-mails não lidos, me deparei com uma mensagem de uma residência de cinema em Istambul para a qual eu havia me candidatado dois meses antes – exatamente três dias antes do que agora chamamos de massacres de janeiro, que foram seguidos por uma interrupção da internet por 20 dias. Como parte da candidatura, gravei um vídeo no qual expliquei a importância da oportunidade naquele momento da minha carreira. Disse que queria sair e ver mais do mundo, e interagir com outros artistas. Eu havia me candidatado sem muita expectativa de sucesso – e a guerra, imaginei, tinha sido o golpe final. Mas eles me aceitaram e agora queriam saber: eu conseguiria ir, apesar da guerra? Respondi agradecendo-lhes profusamente e enfatizando a honra que era para mim.
A fronteira Irã-Turquia, que havia sido fechada durante a primeira semana da guerra, estava aberta novamente. Eu não deixaria essa oportunidade escapar. Eu precisava descobrir como chegar a Istambul até 8 de abril, dali a cerca de um mês. Antes disso, precisava pegar um trem para o sul, onde minha família mora, para passar o Nowruz com eles.
Enquanto meus amigos discutiam minha viagem – e os perigos dos postos de controle, que os israelenses estavam visando – a filhinha de um deles me abraçou forte e disse enfaticamente: «Tia, por favor, não morra!»
«Não tenha medo, minha querida», eu disse. «Eu não vou morrer.»
*
Less is enough, 2023. Obra de Mona Radziabari.
E não morri. Cheguei ao extremo sul: primeiro a Ahvaz e depois a Behbahan, uma pequena cidade pacata a pouco mais de 80 quilômetros do Golfo Pérsico, não muito longe de várias cidades, portos e ilhas – Bushehr, Ahvaz, Ilha de Kharg, Bandar-e Mahshahr – que estiveram nos noticiários por causa dos bombardeios americanos e israelenses.
Behbahan estava tranquila. Alguns locais nos arredores haviam sido alvejados, mas a cidade em si parecia não ter sido afetada, exceto pela presença de guardas de segurança patrulhando as ruas. Pela primeira vez desde o início da guerra, vi peixinhos dourados de Nowruz sendo vendidos nos mercados – uma tradição que parecia ter sido suspensa no resto do país.
Durante aqueles dias relativamente tranquilos, passei muito tempo no site de busca local chamado «Lupa», numa busca exaustiva por uma maneira de chegar a Istambul – exaustiva porque a configuração padrão do «Lupa» é apresentar erros em vez de respostas. Finalmente, encontrei um trem que ia de Teerã para Van, do outro lado da fronteira turca. Comprei uma passagem online e respirei aliviada. Ainda era difícil imaginar que em breve estaria em outro país, longe dessa guerra.
Enquanto isso, as ameaças do presidente americano estavam se tornando cada vez mais repugnantes. E se ele atacasse nossa rede elétrica ou nosso sistema de água? As conversas na casa da minha avó, onde nos reuníamos todas as noites, às vezes eram acaloradas e outras vezes totalmente resignadas e desesperançosas.
Vovó permaneceu um farol de força durante todo esse tempo. Ela chama o presidente americano de «Cenoura, o Cego», por causa de sua tez e cabelo, e pelo fato de que mal se consegue enxergar através das fendas que lhe servem de olhos. Ela criou um novo ditado favorito: «Vou roer os ombros do ‘Cenoura, o Cego’, até chegar no osso.»
Mal consegue andar, mesmo com bengala. Mas ela ama o Irã intensamente e acha que seu país é o centro absoluto do mundo. Quando Obama estava no cargo, costumávamos comentar como era agradável gostar do presidente americano. Menos a vovó. Ela franzia a testa e perguntava: «De que adianta um presidente que não fala farsi?»
Todos nós ríamos. Mas, no fundo, sempre invejei a visão de mundo dessa mulher formidável.
Quando os dois gigabytes da VPN pararam de funcionar, o fornecedor alegou que seus servidores estavam fora do ar. Comprei mais um gigabyte de um fornecedor diferente e consegui abrir o próximo e-mail da residência, que perguntava: «Para qual dia devemos reservar seu voo de Van para Istambul?» Antes que eu pudesse responder, a nova VPN também parou de funcionar. Um primo me emprestou uma terceira. Mas, assim que comecei a mandar uma mensagem para um amigo em Istambul pedindo ajuda com os preparativos, essa também falhou e parou de funcionar. Como último recurso, comprei um plano de chamadas internacionais e, depois de várias tentativas frustradas, finalmente consegui entrar em contato com os escritórios da residência.
Minha mãe estava inquieta e meu pai, furioso. Nenhum dos dois queria que eu deixasse o país nessas circunstâncias.
2
Preparei-me para a viagem de 15 horas de volta a Teerã, onde ficaria por mais três dias antes de seguir para Van. O presidente americano havia prometido queimar todas as pontes e, para provar seu ponto, atacou uma sobre o rio Karaj, que havia sido construída recentemente.
Ao nos despedirmos, minha mãe não parava de chorar, convencida de que nunca mais me veria. Meu pai apertou minha mão e disse para eu ter cuidado. «Como?», perguntei. «Devo colocar as mãos acima da cabeça quando um míssil vier na minha direção?» Nós dois rimos nervosamente. Então, era realmente um adeus.
De volta a Teerã, a farmácia do meu bairro havia desaparecido – e o jovem e alegre farmacêutico também. Vários outros comércios próximos também haviam sido reduzidos a ruínas. Meu apartamento tremia constantemente com as munições que caíam do céu. Deixei as janelas abertas para que as explosões não as quebrassem. Mas o que aconteceria quando eu fosse embora?
A estação ferroviária de Teerã parecia mais um aeroporto. Famílias tinham vindo se despedir de seus entes queridos que partiam para países distantes. Em cada canto, alguém chorava. A incerteza pesava sobre todas as famílias. Era palpável no ar.
Carregada pela culpa, eu já começava a me arrepender da minha decisão. Eu deveria ter ficado no sul com meus pais. E se eles realmente tivessem atingido as usinas de energia e o abastecimento de água? Eu não deveria estar lá para ajudar minha mãe em um momento como esse? Em vez disso, eu só aumentei suas preocupações ao partir. O fato de que eu estaria em Istambul em dois dias parecia surreal – como uma piada, na verdade. A dor de cabeça persistente que eu tinha desde o início da guerra não me deixava em paz.
As outras três mulheres no meu compartimento estavam todas chorando quando entrei. Raha morava na Alemanha há 20 anos e tinha voltado ao Irã para fazer quimioterapia. «Não teria sido melhor fazer o tratamento na Alemanha?», perguntei. Ela disse que se sentia sozinha no exterior. No Irã, ela tinha toda a família ao seu lado. Ela não teria conseguido sobreviver a seis meses de quimioterapia sem eles.
Yeganeh também iria para a Alemanha, para se juntar ao noivo, que estudava lá. Maryam planejava ir de Van para Ancara para fazer o exame de proficiência em inglês IELTS, pois esperava emigrar para a Inglaterra; o teste não era oferecido no Irã havia alguns meses devido às constantes interrupções da internet. Maryam reservou voos duas vezes, e ambas as tentativas foram em vão. «Mesmo que fechem as fronteiras, vou me esconder em um caminhão de transporte», disse ela. «Não me importo mais. Tantos dos meus planos foram por água abaixo, tanto dinheiro que economizei para isso já foi desperdiçado.»
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33 days and 13 hours, 2024. Obra de Mona Radziabari.
Conforme o ar em nosso compartimento oscilava entre quente e frio, minha dor de cabeça piorou e logo senti náuseas. Na fronteira, quando vi a bandeira turca, uma pontada de culpa me atingiu novamente. Eu havia deixado todos para trás. Eu estava sendo egoísta.
O novo prazo dos americanos estava se aproximando rapidamente. Se nenhum acordo fosse alcançado, fomos avisados, eles atacariam nossas usinas de energia. Um dia antes, o complexo petroquímico de Mahshahr havia sido atacado; um primo e um tio ficaram desempregados por causa disso.
Pensei no meu primo de 30 anos, cujo casamento estava marcado para as festas de Ano Novo. Ele tinha toda a vida pela frente. Mas depois que Israel assassinou o líder supremo, todos os casamentos foram cancelados. Meu primo, que havia gasto todas as suas economias nesse casamento, teve que procurar um novo emprego.
Na fronteira, descemos do trem com toda a nossa bagagem. Demoraram mais de três horas e meia para carimbar nossos passaportes com as permissões de saída. Dez minutos depois, fizemos exatamente a mesma coisa do lado turco: outras três horas e meia para as permissões de entrada.
Já na Turquia, entrei na internet. «Não volte para casa depois da residência», minha amiga Elham mandou uma mensagem. «Venha para a Alemanha, como refugiada.»
«E fazer o quê?», respondi. «Você fala como se estivessem me recebendo de braços abertos. E quanto a todos que eu amo? Minha família, meus amigos, meus colegas de ioga, as pessoas que trabalham no meu salão favorito e que sempre me pedem para contar sobre os últimos lançamentos de filmes?»
Um colega me mandou uma mensagem informando que a empresa para a qual trabalhávamos estava fazendo demissões em massa, devido à falta de acesso à internet, o que tornava os negócios praticamente impossíveis.
Chegamos a Van às 14h de segunda-feira, 24 horas depois da partida. Eu queria ir direto para o meu quarto de hotel e dormir. Mas um jornalista tcheco me parou, insistindo em uma entrevista. «Você precisa falar conosco», ordenou ele. «Como mais saberíamos o que está acontecendo no seu país?» Eu estava exausta e insegura de que conseguiria me expressar em inglês naquele momento. Senti um nó na garganta ao lhe dizer isso. Ele acenou com a mão, dizendo que entendia. Olhei para ele. Ele não entendeu nada.
*
Na manhã seguinte, saí do hotel o mais cedo que pude, arrastando minha mala pelas ruas de Van. No avião, tomei dois comprimidos de codeína, na esperança de me recompor. No aeroporto de Istambul, eu estava frenética, me arrastando de um lado para o outro, tentando adivinhar qual dos muitos motoristas do lado de fora estava lá para me buscar. Alguém chamou pelo meu nome, veio até mim, sorriu, pegou minha mala e me conduziu a uma Mercedes-Benz novinha em folha.
Normalmente, eu ficaria entusiasmada por estar sentada em um carro VIP. Agora, tudo o que eu conseguia fazer era tirar um saco plástico da bolsa e vomitar dentro dele. Felizmente, a divisória entre mim e o motorista era escura, então ele não conseguia me ver. Minha dor de cabeça estava insuportável. Deitei no banco de trás e adormeci.
O Beykoz Kundura, o complexo artístico onde a residência estava sendo realizada, era encantador. Me sentia grata por estar ali. E, no entanto, ao ser conduzida à minha suíte, só consegui esboçar um sorriso fraco para minha gentil anfitriã. Assim que a porta se fechou, fui ao banheiro e vomitei novamente por mais alguns minutos antes de adormecer. Horas depois, no meio da noite, acordei e comecei a checar meu celular freneticamente, convencida de que o louco do outro lado do mundo finalmente havia dado ordens para que meu país fosse aniquilado.
Na verdade, um cessar-fogo temporário havia sido anunciado. Respirei fundo, fiz uma pausa e então comecei a chorar copiosamente. Não conseguia parar. Lá estava eu, hóspede nesta suíte encantadora em uma renomada colônia de artistas, com janelas voltadas para o mar, e tudo o que eu conseguia fazer era chorar até adormecer de novo.
Acordei ao amanhecer, me vesti e fui me sentar à beira da água. Apesar de todas essas tristezas, permanecemos de pé. Sem perceber, comecei a cantarolar a melodia de uma canção antiga com uma letra completamente diferente.
por Sara Mokhavat.
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Publicado em 28 de abril de 2026 na The Equator, em tradução do original persa por Salar Abdoh.
O romance de Sara Mokhavat, The Woman Who was Found at the Lost & Found, foi publicado em Teerã em 2016. Ela também é diretora dos curtas-metragens Shogoon, Private e Lovebirds.
Salar Abdoh é romancista e ensaísta. A Nearby Country Called Love é seu livro mais recente.





